Sítio

Você já ficou imaginando quantas pessoas precisam de um lugar onde poderiam ir para fugir e por um dia esquecer seus problemas, esvaziar suas mentes e apenas viver? Seria utopia de minha parte imaginar um lugar onde todos os momentos são felizes?
Bem, sonhar é sempre bom, e eu queria poder me isolar num local onde o mundo fosse apenas paixão, sem nenhuma razão, ou muito menos obrigações.
Esse lugar deve existir, não sei se perto ou longe, mas talvez um dia possa desfrutar esse sonho. Se existe, com toda certeza esse lugar seria cercado por um muro imenso e impenetrável, construído apenas para impedir a entrada de pessoas más e sentimentos ruins. Sua entrada, um enorme portão rosa, que ao se aproximar abriria sozinho, nos recebendo com imponência e um certo glamour, como se qualquer um que pudesse entrar fosse uma estrela de Hollywood.
Lá dentro o clima seria quente no verão e frio no inverno. Na primavera, as árvores frutíferas estariam repletas de seus frutos. No outono, as folhas estariam caídas por todo o solo, o clima seria ameno e o ar estaria com cheiro de grama molhada. Em todas as estações ouviríamos pássaros cantando enquanto faziam vôos rasantes sobre as flores, e alguns macaquinhos fariam suas travessuras sobre os galhos das árvores.
Um caminho de pedras brancas e redondas colocadas uma do lado da outra, com o capricho do trabalho de um artesão, nos guiaria até o interior daquele lugar, lá, poderíamos avistar do lado esquerdo uma casa com varanda e uma rede para descansar, mais ao fundo, outra casa, também com uma varanda, mas com uma mesa para jantar. Mangueiras, cajueiros, cajazeiros, infinitas árvores frutíferas, cheias de seus frutos, esperando apenas que eu ou você chegasse para saborear.
Quando o caminho de pedras terminasse, tiraríamos os sapatos e de pés descalços iríamos caminhar sobre a grama até um local caprichoso, decorado de forma rústica, com uma enorme mesa de madeira, cadeiras coloridas, um casinha de taipa ao lado, e muitos vasos com pequeninas plantas fazendo a decoração. Tudo isso, envolvido por uma cerca de madeira, e lá,
sorridentes estariam velhos amigos nos esperavam para conversar.
Seria um dia de alegria, com conversas bobas e muitas risadas. Faríamos todas as brincadeiras que quiséssemos, íamos jogar vôlei, tomar banho de caixa d’água, estender uma lona no chão e molhar com sabão para deslizar de barriga até caímos na areia. Beberíamos muita cerveja, comeríamos frutas, carnes e tudo que existe de mais saboroso, sem se preocupar com o mundo fora dali. Ao final, estaríamos embriagados, falando besteira num volume bastante alterado e registrando tudo em fotografias na parede de nossa memória.
A sensação de prazer e satisfação nos faria querer ficar por ali para todo o sempre, desejando que o tempo estivesse parado, e que nenhum de nós tivesse que voltar à velha rotina.
Como seria bom se realmente existisse lugar assim… Eu, apenas um sonhador não saberia que nome colocar num local tão pleno, agradabilíssimo e receptivo… Acho que apenas chamaria de “Sítio”. Talvez seja num sítio, onde vamos nos encontrar.

O pequeno Gabriel

Na noite da última sexta-feira dia 15 de novembro, eu, minha namorada e um casal de amigos estávamos nos divertindo durante o Festival do Marisco de minha cidade (Barra de São Miguel-AL). Em meio ao clima da festa e das boas risadas, uma cena nos chamou a atenção. Um pequeno garoto franzino, se esgueirava entre as pessoas segurando um saco preto maior que ele, recolhendo as latinhas de alumínio que estavam espalhadas pelo chão.
Uma cena corriqueira em grandes eventos se tornou perturbadora para mim. Eu fiquei ali, olhando fixamente cada movimento do pequeno catador, enquanto se passavam milhões de questionamentos em minha mente. O principal deles era o motivo que fazia todos ao redor, não notarem aquele menino, e os que o perceberam simplesmente ignoraram.
Olhei para meu amigo, que tem uma filhinha de sete anos, e vi que o meu sentimento era igual ao dele. Então, chamei o garoto para nossa mesa, desconfiado, ele me olhava sem acreditar que o chamado era pra ele, para chamar sua atenção levantei uma lata, e ele prontamente veio, pois, seria mais uma para encher seu saco que ainda estava pela metade.
Quando ele se aproximou , perguntei se ele estava com fome, e sem olhar nos meus olhos, fez apenas um sinal positivo com a cabeça . Puxei uma cadeira, e disse para sentar, ele sentou, mas não soltava as latas que já tinha apanhado. Olhei para ele, e disse:
– Eu pedi um churrasco para você, como vai comer segurando esse saco? Deixe que seguro pra você.
Sem dizer uma palavra, ele me deu o saco, e aguardou quieto o churrasco chegar.
Enquanto estávamos ali, o observando, minha namorada e meus amigos tentavam arrancar algumas palavras dele, perguntando seu nome, idade, onde morava, e onde estavam seus pais.
Após uns minutos sua refeição chegou, ele comia com gosto, e rapidamente. Foi então, que começou a falar e nos revelou seu nome e idade. Aquele pequenino esfomeado se chamava Gabriel, e tinha apenas cinco anos.
Após comer metade, e tomar metade do refrigerante, ele olhou pra mim, e perguntou se poderia levar o resto para sua mãe. Aquela atitude deixou todos na mesa emocionados, minha voz sumiu com tanta emoção, sem consegui respondê-lo, apenas fiz um sinal de positivo com a cabeça, então, ele pegou o prato, a lata do refrigerante, seu saco de latinhas e saiu em passos rápidos na direção de uma mulher que também catava latas. Ele a entregou o prato e apontou pra nossa mesa, ela olhou e começou a comer sentada a beira da calçada. Quando ela acabou de comer, levantou-se pegou seu saco de latas, e recomeçou seu trabalho, e o pequeno Gabriel, sumiu de nossas vistas ajudando sua mãe.
A noite não foi mais a mesma, eu e meus amigos sentimos naquele momento, um sentimento de indignação e uma culpa enorme por não poder fazer nada para ajudar aquela criança.
Passei a noite pensando no Gabriel, e em quantas outras crianças precisam trabalhar como adultos para ajudar seus pais.
Como podemos falar em meritocracia num país tão desigual? Qual a oportunidade que o Gabriel vai ter na vida?
No festival, estavam presentes várias crianças da idade do Gabriel, todas bem vestidas, brincando e sorrindo ao lado de seus pais, enquanto aquela criatura de expressão sofrida e humilde, vestindo trapos, andava a catar latas sem que ninguém o notasse.
Hoje, me pergunto o que posso fazer para mudar essa realidade, pois, sou um dos culpados por essa desigualdade tão desleal em nosso país. Ainda não sei o que fazer, mas tentarei achar uma forma de ajudar essas crianças.
Esse texto é apenas um desabafo e uma tentativa de alertar outras pessoas, para que abram os olhos e tentem mudar a vida do Gabriel, do João, da Maria, da Ana, de milhões de crianças que precisam de carinho, atenção e cuidados.

Rotina

Ele caminhava lentamente em direção ao nada infinito que o perseguia todos os dias, e sem que percebesse ele sempre conseguia chegar há lugar algum, vagando num círculo infinito. Em mais um fatídico dia de sua existência, levantou-se da cama e caminhou lentamente em direção a janela de seu quarto, abriu e olhou vagamente a paisagem da cidade que nunca mudara em todos os anos em que essa rotina se repetia.
Acendeu um cigarro, tragou até a última ponta, encheu-se de covardia assim como seus pulmões estavam cheios de fumaça, e repetiu seus movimentos automatizados até a hora de pôr seus pés cansados para fora de seu apartamento.
A rua era a mesma, as pessoas pareciam se repetir também, mas o trânsito era cada vez mais difícil de enfrentar. Dentro do ônibus pensava em como iria voltar e que horas iria dormir, afinal, dormir era o único momento onde o nada realmente fazia sentido de existir.
Longas duas horas em pé, ouvindo conversa de pessoas vazias, reclamações de gente desinteressante e vendedores de balas que subiam em cada parada. Finalmente estava livre daquela prisão sobre rodas, desceu e caminhou mais ou menos um quilômetro, até chegar ao escritório de contabilidade ao qual era funcionário, desde quando se formou naquele curso patético, que ele nem queria cursar, mas filho de contador, vira contador.
Planilhas, planilhas, planilhas… Quem foi o miserável que inventou o Excel?
O relógio finalmente marcou o meio dia. Saiu de novo para a rua que estava ainda mais movimentada do que quando chegou. Olhou as opções de almoço por perto, e como de costume, preferiu sentar-se na mesa de um modesto bar, acender um cigarro, pedir uma cerveja e um pratinho de fritas cheias de óleo velho, com pedaços de carne de terceira. No cardápio estava descrito “filé com fritas”.
Ao fim daquela nutritiva refeição voltou para seu habitat.
Planilhas, planilhas, planilhas… Que queime no inferno o miserável que inventou o Excel!
Depois de oito horas de trabalho metódico por um salário miserável, ele retornou para seu lar, triste e infeliz como todos os outros dias, e com apenas o desejo de cair na cama e dormir, e se possível, se Deus realmente existir, não acordar nunca mais.
Ao abrir a porta de casa preparou-se para seu repouso, tomou um banho demorado, ligou a TV para assistir qualquer porcaria que passe na programação, pegou o telefone e fez uma chamada para a lanchonete da esquina, e repetiu o velho pedido, um misto quente e uma coca cola bem gelada.
Após sua refeição, fumou mais um cigarro, e finalmente, repousou sobre sua cama desarrumada…

A forma certa de amar

Para se amar não existe fórmula mágica, nem critérios que te fazem escolher um grande amor.
Existem tantas formas de amar, pois o mundo é na verdade, um grande playground em que você pode me encontrar.
Você pode amar, a pessoa cara metade, a que lhe diz verdades, a que te permite sonhar.
É bom amar quem chora junto com vc, quem sofre ao te ver sofrer, quem se preocupar em te ver feliz.
A forma certa de amar, é não ser platônico, é saber que somos humanos, temos defeitos e vamos errar.
O importante de amar, é sorrir de alegria, nas conversas mais vazias e com piadas ruins.
A forma certa de amar, é saber que o amor na verdade não vai na tempestade, mas chega no verão. É abrir mão de dias felizes quando seu amor está precisando apenas do seu coração.
Para se amar tem que desabafar, ser amigo da verdade e nunca jurar.
Ser feliz ao amar, é não escutar o mundo, é ter o seu escudo protetor de dois corações.
Para se amar, não precisa ser humano, pode ser um cachorro ou bichano, até mesmo um jaguar.
O bom de amar, é saber que na verdade, o amor não sabe o valor que o dinheiro tem.
O amor não conhece idade, sexo ou vaidades, cor ou religião. O amor é aquilo mais profundo, a lágrima de orgulho ao ver o outro bem.
A forma certa de amar é curtir a música mais louca, dançando com pouca roupa na sua sala de estar.
Para se amar, não precisa ser amado, afinal o amor é mágico e o cupido sabe onde acertar.
Se você demorar para achar seu amor, olhe pro seus amigos, sua família e inimigos, de repente o problema é você.
Deixe seu preço certo de lado, ame-se ao quadrado e distribua seu amor.
A forma certa de amar é não ter forma correta, basta olhar pela janela e ver que a lua ama o sol mesmo sem o tocar.

A influência política na credibilidade da informação

Em 2011 surge no Brasil como uma explosão atômica, o Facebook. A rede social de Mark Zuckerberg entrava naquele momento no gosto do brasileiro. É bem verdade que ela já estava presente no país há algum tempo, porém, é nesse ano que a maior rede social do planeta iria começar a mudar o processo de informação e a formação da consciência da verdade da população.
Nesse fatídico ano, o mundo vê fatos significativos, a população mundial chega aos 7 bilhões de pessoas, o chefe da Al Qaeda, Osama bin Laden, é assassinado durante uma operação das forças especiais americanas depois de dez anos de perseguição. Mas no país tupiniquim o fato que realmente mudou a visão do povo foi quando o ministro do trabalho, Carlos Lupi renunciou, se tornando o sexto integrante do gabinete a abandonar o cargo em seis meses depois de ser acusado de corrupção.
Começava naquele momento uma onda de divergências políticas dentro do mundo “facebookiano”, a rede social passou a dar voz e audiência para pessoas antes desconhecidas de maioria da população. Ideias e opiniões foram jogadas abruptamente para quem queria, ou não, saber de tais conjunturas. A corrupção cravada no coração do governo petista gerou na população a descrença na política, nos políticos e principalmente na imprensa.
A credibilidade do jornalismo nacional foi colocada em xeque, veículos consagrados passaram a ser contestados e enfrentados pelos especialistas das redes sociais. A velocidade da informação já era outra, e a interpretação dos fatos passava a ser individual, fugindo do senso comum imposto pela comunicação de massa igualitária fornecida por esses canais.
Os anos se passaram e a internet cresceu assustadoramente, outras redes sociais surgiram, e consequentemente sua influencia na vida do brasileiro se tornou mais importante do que a imprensa tradicional.
E por que isso aconteceu? Esta é uma indagação que não é simples de responder, hoje o momento é de contestação da verdade absoluta, por onde se olha, avistamos um movimento de negação a conceitos indubitáveis que cercam nossa vida, tudo influenciado por um movimento de direita radical.
É verdade que existe um partidarismo de esquerda na imprensa nacional e que essas empresas de comunicação são as maiores beneficiárias de estatais e de empresas privadas que mantém relacionamentos desonestos com o Estado. Em 2016, por exemplo, segundo a revista Forbes o gasto com publicidade, apenas do governo federal, superou o absurdo de 1,5 bilhão de reais, pagos às entidades de comunicações no Brasil.
A popularização da internet abriu espaço para que as vozes independentes peitassem o discurso vigente. Se não tinham a estrutura profissional para lutarem contra tanta narrativa, tinham ao menos a verdade ao lado. E o estrago foi tamanho que a mídia reagiu no padrão esquerdista: atacou a reputação – denunciando-os como mentirosos – e tentou silenciá-los – num primeiro momento, pela interferência de “fact-checkers”, num segundo, insistindo para que governos regulem as redes sociais.
A verdade é que, salvo por raríssimas exceções, não há jornalismo politicamente livre no ocidente. E só o reconhecimento desta metástase permitirá à sociedade incentivar a busca por novas e seguras fontes de informação.
Agora o que realmente não dá para entender, é que essa busca pela “verdade verdadeira” traga consigo questões que achamos que nunca voltariam às pautas, como por exemplo, a existência da gravidade, e a possibilidade da terra ser realmente plana. Absurdos defendidos com unhas e dentes pela idealização gerada pelas redes sociais, e principalmente pela rejeição a informação tradicional.
Se o viés politico para esquerda é maléfico, para a direita ele se torna nefasto. Quando Charles Darwin descreveu a teoria da evolução ele não deveria imaginar que a mente do brasileiro evoluiria tanto, ao ponto de pensar da forma conservadora como se estivesse na idade média.
É preciso pensar no futuro. E a imprensa que endossa o discurso dos próprios algozes é um atraso que merece ficar no passado. E as informações das redes sociais precisam achar seu lugar, sem distorcer a realidade e a história da humanidade.

O comum pode ser diferente

Era apenas mais um dia comum na vida de um homem comum, que levantou-se de sua cama comum, tomou seu café da manhã comum e foi para seu trabalho comum.
Dirigiu de sua casa comum naquele trânsito frenético comum em grandes metrópoles e chegou a seu destino. Entrou naquele escritório contábil comum, balbuciou um bom dia para as pessoas comuns que dividiam aquele espaço comum, como sempre fazia, afinal, é comum ser educado.
Sentou-se na sua cadeira comum em frente ao velho birô comum, ligou seu computador comum, e começou a fazer suas tarefas comuns, como fazia há 15 anos.
Final do expediente, o relógio da parede marcava 18h, e como era comum, todos saíam apressados para fazer suas coisas comuns.
Naquele momento, aquele homem comum decidiu fazer diferente. Esperou o escritório esvaziar, tirou sua gravata comum e andou devagar até a porta.
Saiu de lá com um sorriso no rosto, estava ele diferente. Entrou em seu carro e ligou o rádio no mais alto volume, escutando uma música diferente. Dirigiu pelo caminho contrário de sua casa e começou a ver coisas diferentes, prédios, carros, pessoas, cores.
Ser diferente não era tão difícil afinal. Parou num bar diferente, com pessoas diferentes, conversando sobre assuntos diferentes, sem aquela educação comum, e com uma ousadia diferente de tudo que ele já vira até ali.
Embriagou-se e se sentiu diferente, estava ele conversando com estranhos, rindo de coisas que não sabia o que era, mas sabia que era diferente.
A noite diferente não podia terminar comum, então ele não pestanejou, diferente do que faria, juntou seus novos amigos diferentes e foram para uma praia diferente contemplar o nascer do sol, uma coisa tão comum, mas que era diferente para ele que nunca tinha visto.
Naquele momento seu coração batia diferente, seu sangue circulava diferente, e sua alma estava feliz, viu que o diferente pode mostrar o quão diferente pode ser o comum.

De que maneira a comunicação de massa é utilizada para reforçar preconceitos? E a quem a difusão desses preconceitos favorece?

A palavra preconceito é composta a partir dos derivados de PRE, “antes”, e CONCEPTUS, “resumo”, do Latim – inicialmente algo preparado ou concebido, de CONCIPERE, “conceber, engravidar” – a palavra parece ter sido construída dentro da própria língua portuguesa. O preconceito é um juízo de valor criado sem razão objetiva e que se manifesta por meio da intolerância. Geralmente ele envolve o rechaço à condição social, nacionalidade, orientação sexual, etnia, maneira de falar ou de se vestir de um indivíduo ou grupo social.
O preconceito surge por meio do julgamento nocivo que se faz sobre as diferenças entre as pessoas. Este ato resultante da ignorância acompanha a humanidade desde a sua concepção.
Sedento por poder, o homem é impulsionado a se mostrar superior perante outros, introduzindo impetuosamente sua cultura, ideologia e concepções sobre indivíduos, povos ou nações considerados menores.
Antes de se estabelecer um conceito de comunicação como conhecemos hoje, essas imposições eram realizadas através da força, utilizando na maioria das vezes o poder dos grandes exércitos. Assim como fizeram os Romanos quando venceram a Primeira Guerra Púnica, conquistando e dominando a Sicília.
Nossa história está repleta de guerras, todas impulsionadas pela sede de poder naturalmente introduzida pela natureza em qualquer pessoa. Porém, com a evolução espontânea em todas as áreas do conhecimento, e principalmente da comunicação através dos estudos filosóficos e sociológicos, as técnicas de imposição sociocultural evoluíram para um novo patamar. Podemos dizer também, que a invenção da prensa por Gutemberg em 1447, deu início a uma nova era no processo de comunicação. Gutemberg se tornava naquele momento o responsável indireto pelo inicio da comunicação de massa.
A comunicação de massa tem como principal característica o fato de chegar a uma grande quantidade de receptores ao mesmo tempo, partindo de um único emissor. Esse tipo de comunicação, foi o grande objeto de estudos dos principais pensadores da Escola de Frankfurt, Max Horkheimer e Theodor Adorno, os quais discutiam a influência dos meios de comunicação de massa, como o rádio, sobre uma sociedade.
A cultura de massa é o que mais interessa aos comunicadores, sua mensagem é pública, rápida e transitória e sua audiência é heterogênea, anônima e gigantesca. Segundo Theodor Adorno, a mídia não se volta apenas para suprir as horas de lazer ou dar informações aos seus ouvintes ou espectadores, mas faz parte do que ele chamou de indústria cultural. Esse tipo de comunicação tem influência direta na cultura de um povo, é através dela que a mídia insere gostos musicais, maneiras de se vestir e principalmente de pensar determinados assuntos.
O preconceito é um ponto sempre observado nos meios de comunicação de massa no mundo contemporâneo, assim como em qualquer época desde o surgimento do jornal, que é considerado o primeiro meio de comunicação de massa utilizado pela humanidade.
Os meios de comunicação propagam o preconceito por meio de inúmeras formas, uma das mais explícitas é a seleção racial. Por muito tempo, eram raros apresentadores negros na televisão brasileira por exemplo. O chamado “padrão de beleza” feminino com mulheres sempre magras, e a exclusão dos gordinhos dos ambientes da moda, é outro exemplo marcante do quanto o preconceito, foi e é propagado dentro das casas das pessoas. E isso se estende para outras áreas.
A publicidade é um mundo cheio de estereótipos, onde reforça de forma subliminar o desprezo a quem foge dos padrões determinados por ela, impondo também o preconceito dentro desse contexto, mesmo que de forma subliminar e bastante sutil.
A exposição do mais fraco, do diferente, do incompreendido é a forma mais agressiva de preconceito que pode existir.
O retrato natural da sociedade moderna, é a massa como massa, pessoas que não notam que vivem dentro de um mundo onde seus desejos são determinados por essa minoria dominadora, que impõe em todas as áreas suas diretrizes. E a massa, segue esses passos, como uma boiada segue o vaqueiro.
Em resumo, a comunicação de massa é o objeto principal da minoria de “soberanos” da sociedade, para impor a grande maioria da população o caminho ao qual devem seguir. Assim como os romanos, que utilizava seu forte exercito para conquistar outros povos, essa minoria utiliza a comunicação de massa como um exercito psicológico e intelectual, porém, mais forte e cruel que qualquer outro.

O Velho Relógio

Não me lembro de quando, nem onde nasci. Minha primeira lembrança foi de quando senti a energia das pilhas que colocaram em mim pela primeira vez. Aconteceu há exatamente 525600 horas. Sim, com essa exatidão, afinal, hoje é meu aniversário.
Durante toda minha vida estive sempre no mesmo lugar da casa, aqui, na parede da cozinha, de frente para a pia de lavar louças e o fogão. Logo abaixo de onde estou fica uma pequena mesa redonda, com um jarro onde um dia foram colocadas lindas flores. Quando meus ponteiros começaram a girar, eu fui colocado neste local, e daqui só saia para a troca de pilhas, ou para uma limpeza, porém, voltava rapidamente para ser pendurado no mesmo prego, hoje, envelhecido assim como eu.
Essa casa mudou muito durante todas essas horas. A parede em que vivo foi pintada tantas vezes que não conseguiria dizer com exatidão, isso deve ter acontecido com os outros cômodos também. O piso também foi modificado duas vezes, a pia da cozinha já não é mais a mesma de quando cheguei, aliás, nem os eletrodomésticos são os mesmos. Os membros mais velhos deste pequeno espaço sou eu e a mesa abaixo de mim, que já estava aqui antes da minha chegada.
A pessoa que me trouxe pra cá, Dona Dete, desapareceu da cozinha há alguns dias. Desconfio que ela tenha ficado sem pilhas, pois, aparentava ter a minha idade e mais algumas horas. Pilhas de modelos tão antigos devem ser difíceis de achar. Espero que comprem pilhas para ela, pois, a saudade está apertando meus ponteiros.
Ela era quem trocava minhas pilhas e fazia sempre a minha higienização, com uma flanela umedecida de lustra móvel. Mesmo antes das que estavam em mim se enfraquecerem totalmente, ela as trocava, era uma sábia senhora, sempre conseguia notar a queda de ritmo de meus ponteiros. Continuadamente me observava com seu olhar gentil, vivia maior parte do tempo aqui, cozinhando no fogão, ou lavando os pratos e panelas após as refeições que eram servidas na sala ao lado. Apenas o jantar era servido aqui.
Os segundos realmente voam. Dona Dete era jovem quando me trouxe pra cá, dividia a casa com seu marido Jacó, um homem sempre apressado, e que só aparecia na cozinha para o jantar. Após a refeição, tinha como hábito olhar rapidamente para mim. Esse ritual se repete até hoje. Mesmo com aparência desgastada, ele continua apressado.
Eles moraram aqui sozinhos por várias horas, até que na hora 35040 depois da minha chegada, apareceram duas crianças de uma só vez, um menino chamado Jair, e uma menina chamada Joana. Muito parecidos, ouso dizer, idênticos. Crianças adoráveis, viviam a brincar por toda a casa, e sempre estavam passando pela cozinha, assaltando a geladeira, ou simplesmente fazendo suas traquinagens.
Quando os raios de sol entravam na cozinha através da porta do quintal, eles me olhavam loucos e ansiosos para que meu ponteiro menor estivesse apontando para o 3, e o maior para o 12. Aquela era hora do lanche.
Mas o tempo não para, eles cresceram e foram embora daqui. Voltam de vez em quando, sempre de forma apressada, e nunca olham pra mim. Desde que dona Dete sumiu, Joana traz uma sacola com comida, deixa sobre o fogão e sai. Mas seu olhar não carrega mais a alegria e inocência de uma criança. Na sacola está o jantar de seu Jacó, que sempre come sentado no mesmo lugar da mesa durante exatos 10 minutos, me olha, e vai em direção a sala.
Hoje, minha vida se resume a isso. Não muito diferente do dia em que acordei aqui, afinal, minha função sempre foi girar os ponteiros, sem descanso ou pagamento, nunca parei nem de dia, nem de noite. Nunca viajei, nem mesmo conheci totalmente a casa onde moro. As coisas que aprendi foram ouvindo o rádio junto com dona Dete, ou a conversa dela com seu Jacó durante o jantar. Nunca conversei com ninguém que aqui viveu, ou que por aqui passou, como o encanador por exemplo. Nunca pude ver o azul do céu, ou a beleza do luar.
Agora padeço na solidão, com o direito de receber apenas um mísero olhar. Sou um relógio, e se ninguém olha as horas, qual o sentido minha existência? Não sei contar dias, meses ou anos, apenas segundos, minutos e horas. E continuarei sem saber até que horas chegarei, imaginando em que minuto meu ponteiro vai parar.
Sei que não terei mais memórias após essas pilhas acabarem, não acho que receberei novas pilhas, pois, apenas uma pessoa tocou em mim desde que aqui cheguei. Se ela não voltar… Só ela me via como parte desta casa, como um contador fiel do tempo dessa família.