O pequeno Gabriel

Na noite da última sexta-feira dia 15 de novembro, eu, minha namorada e um casal de amigos estávamos nos divertindo durante o Festival do Marisco de minha cidade (Barra de São Miguel-AL). Em meio ao clima da festa e das boas risadas, uma cena nos chamou a atenção. Um pequeno garoto franzino, se esgueirava entre as pessoas segurando um saco preto maior que ele, recolhendo as latinhas de alumínio que estavam espalhadas pelo chão.
Uma cena corriqueira em grandes eventos se tornou perturbadora para mim. Eu fiquei ali, olhando fixamente cada movimento do pequeno catador, enquanto se passavam milhões de questionamentos em minha mente. O principal deles era o motivo que fazia todos ao redor, não notarem aquele menino, e os que o perceberam simplesmente ignoraram.
Olhei para meu amigo, que tem uma filhinha de sete anos, e vi que o meu sentimento era igual ao dele. Então, chamei o garoto para nossa mesa, desconfiado, ele me olhava sem acreditar que o chamado era pra ele, para chamar sua atenção levantei uma lata, e ele prontamente veio, pois, seria mais uma para encher seu saco que ainda estava pela metade.
Quando ele se aproximou , perguntei se ele estava com fome, e sem olhar nos meus olhos, fez apenas um sinal positivo com a cabeça . Puxei uma cadeira, e disse para sentar, ele sentou, mas não soltava as latas que já tinha apanhado. Olhei para ele, e disse:
– Eu pedi um churrasco para você, como vai comer segurando esse saco? Deixe que seguro pra você.
Sem dizer uma palavra, ele me deu o saco, e aguardou quieto o churrasco chegar.
Enquanto estávamos ali, o observando, minha namorada e meus amigos tentavam arrancar algumas palavras dele, perguntando seu nome, idade, onde morava, e onde estavam seus pais.
Após uns minutos sua refeição chegou, ele comia com gosto, e rapidamente. Foi então, que começou a falar e nos revelou seu nome e idade. Aquele pequenino esfomeado se chamava Gabriel, e tinha apenas cinco anos.
Após comer metade, e tomar metade do refrigerante, ele olhou pra mim, e perguntou se poderia levar o resto para sua mãe. Aquela atitude deixou todos na mesa emocionados, minha voz sumiu com tanta emoção, sem consegui respondê-lo, apenas fiz um sinal de positivo com a cabeça, então, ele pegou o prato, a lata do refrigerante, seu saco de latinhas e saiu em passos rápidos na direção de uma mulher que também catava latas. Ele a entregou o prato e apontou pra nossa mesa, ela olhou e começou a comer sentada a beira da calçada. Quando ela acabou de comer, levantou-se pegou seu saco de latas, e recomeçou seu trabalho, e o pequeno Gabriel, sumiu de nossas vistas ajudando sua mãe.
A noite não foi mais a mesma, eu e meus amigos sentimos naquele momento, um sentimento de indignação e uma culpa enorme por não poder fazer nada para ajudar aquela criança.
Passei a noite pensando no Gabriel, e em quantas outras crianças precisam trabalhar como adultos para ajudar seus pais.
Como podemos falar em meritocracia num país tão desigual? Qual a oportunidade que o Gabriel vai ter na vida?
No festival, estavam presentes várias crianças da idade do Gabriel, todas bem vestidas, brincando e sorrindo ao lado de seus pais, enquanto aquela criatura de expressão sofrida e humilde, vestindo trapos, andava a catar latas sem que ninguém o notasse.
Hoje, me pergunto o que posso fazer para mudar essa realidade, pois, sou um dos culpados por essa desigualdade tão desleal em nosso país. Ainda não sei o que fazer, mas tentarei achar uma forma de ajudar essas crianças.
Esse texto é apenas um desabafo e uma tentativa de alertar outras pessoas, para que abram os olhos e tentem mudar a vida do Gabriel, do João, da Maria, da Ana, de milhões de crianças que precisam de carinho, atenção e cuidados.

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