Rotina

Ele caminhava lentamente em direção ao nada infinito que o perseguia todos os dias, e sem que percebesse ele sempre conseguia chegar há lugar algum, vagando num círculo infinito. Em mais um fatídico dia de sua existência, levantou-se da cama e caminhou lentamente em direção a janela de seu quarto, abriu e olhou vagamente a paisagem da cidade que nunca mudara em todos os anos em que essa rotina se repetia.
Acendeu um cigarro, tragou até a última ponta, encheu-se de covardia assim como seus pulmões estavam cheios de fumaça, e repetiu seus movimentos automatizados até a hora de pôr seus pés cansados para fora de seu apartamento.
A rua era a mesma, as pessoas pareciam se repetir também, mas o trânsito era cada vez mais difícil de enfrentar. Dentro do ônibus pensava em como iria voltar e que horas iria dormir, afinal, dormir era o único momento onde o nada realmente fazia sentido de existir.
Longas duas horas em pé, ouvindo conversa de pessoas vazias, reclamações de gente desinteressante e vendedores de balas que subiam em cada parada. Finalmente estava livre daquela prisão sobre rodas, desceu e caminhou mais ou menos um quilômetro, até chegar ao escritório de contabilidade ao qual era funcionário, desde quando se formou naquele curso patético, que ele nem queria cursar, mas filho de contador, vira contador.
Planilhas, planilhas, planilhas… Quem foi o miserável que inventou o Excel?
O relógio finalmente marcou o meio dia. Saiu de novo para a rua que estava ainda mais movimentada do que quando chegou. Olhou as opções de almoço por perto, e como de costume, preferiu sentar-se na mesa de um modesto bar, acender um cigarro, pedir uma cerveja e um pratinho de fritas cheias de óleo velho, com pedaços de carne de terceira. No cardápio estava descrito “filé com fritas”.
Ao fim daquela nutritiva refeição voltou para seu habitat.
Planilhas, planilhas, planilhas… Que queime no inferno o miserável que inventou o Excel!
Depois de oito horas de trabalho metódico por um salário miserável, ele retornou para seu lar, triste e infeliz como todos os outros dias, e com apenas o desejo de cair na cama e dormir, e se possível, se Deus realmente existir, não acordar nunca mais.
Ao abrir a porta de casa preparou-se para seu repouso, tomou um banho demorado, ligou a TV para assistir qualquer porcaria que passe na programação, pegou o telefone e fez uma chamada para a lanchonete da esquina, e repetiu o velho pedido, um misto quente e uma coca cola bem gelada.
Após sua refeição, fumou mais um cigarro, e finalmente, repousou sobre sua cama desarrumada…

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