O Velho Relógio

Não me lembro de quando, nem onde nasci. Minha primeira lembrança foi de quando senti a energia das pilhas que colocaram em mim pela primeira vez. Aconteceu há exatamente 525600 horas. Sim, com essa exatidão, afinal, hoje é meu aniversário.
Durante toda minha vida estive sempre no mesmo lugar da casa, aqui, na parede da cozinha, de frente para a pia de lavar louças e o fogão. Logo abaixo de onde estou fica uma pequena mesa redonda, com um jarro onde um dia foram colocadas lindas flores. Quando meus ponteiros começaram a girar, eu fui colocado neste local, e daqui só saia para a troca de pilhas, ou para uma limpeza, porém, voltava rapidamente para ser pendurado no mesmo prego, hoje, envelhecido assim como eu.
Essa casa mudou muito durante todas essas horas. A parede em que vivo foi pintada tantas vezes que não conseguiria dizer com exatidão, isso deve ter acontecido com os outros cômodos também. O piso também foi modificado duas vezes, a pia da cozinha já não é mais a mesma de quando cheguei, aliás, nem os eletrodomésticos são os mesmos. Os membros mais velhos deste pequeno espaço sou eu e a mesa abaixo de mim, que já estava aqui antes da minha chegada.
A pessoa que me trouxe pra cá, Dona Dete, desapareceu da cozinha há alguns dias. Desconfio que ela tenha ficado sem pilhas, pois, aparentava ter a minha idade e mais algumas horas. Pilhas de modelos tão antigos devem ser difíceis de achar. Espero que comprem pilhas para ela, pois, a saudade está apertando meus ponteiros.
Ela era quem trocava minhas pilhas e fazia sempre a minha higienização, com uma flanela umedecida de lustra móvel. Mesmo antes das que estavam em mim se enfraquecerem totalmente, ela as trocava, era uma sábia senhora, sempre conseguia notar a queda de ritmo de meus ponteiros. Continuadamente me observava com seu olhar gentil, vivia maior parte do tempo aqui, cozinhando no fogão, ou lavando os pratos e panelas após as refeições que eram servidas na sala ao lado. Apenas o jantar era servido aqui.
Os segundos realmente voam. Dona Dete era jovem quando me trouxe pra cá, dividia a casa com seu marido Jacó, um homem sempre apressado, e que só aparecia na cozinha para o jantar. Após a refeição, tinha como hábito olhar rapidamente para mim. Esse ritual se repete até hoje. Mesmo com aparência desgastada, ele continua apressado.
Eles moraram aqui sozinhos por várias horas, até que na hora 35040 depois da minha chegada, apareceram duas crianças de uma só vez, um menino chamado Jair, e uma menina chamada Joana. Muito parecidos, ouso dizer, idênticos. Crianças adoráveis, viviam a brincar por toda a casa, e sempre estavam passando pela cozinha, assaltando a geladeira, ou simplesmente fazendo suas traquinagens.
Quando os raios de sol entravam na cozinha através da porta do quintal, eles me olhavam loucos e ansiosos para que meu ponteiro menor estivesse apontando para o 3, e o maior para o 12. Aquela era hora do lanche.
Mas o tempo não para, eles cresceram e foram embora daqui. Voltam de vez em quando, sempre de forma apressada, e nunca olham pra mim. Desde que dona Dete sumiu, Joana traz uma sacola com comida, deixa sobre o fogão e sai. Mas seu olhar não carrega mais a alegria e inocência de uma criança. Na sacola está o jantar de seu Jacó, que sempre come sentado no mesmo lugar da mesa durante exatos 10 minutos, me olha, e vai em direção a sala.
Hoje, minha vida se resume a isso. Não muito diferente do dia em que acordei aqui, afinal, minha função sempre foi girar os ponteiros, sem descanso ou pagamento, nunca parei nem de dia, nem de noite. Nunca viajei, nem mesmo conheci totalmente a casa onde moro. As coisas que aprendi foram ouvindo o rádio junto com dona Dete, ou a conversa dela com seu Jacó durante o jantar. Nunca conversei com ninguém que aqui viveu, ou que por aqui passou, como o encanador por exemplo. Nunca pude ver o azul do céu, ou a beleza do luar.
Agora padeço na solidão, com o direito de receber apenas um mísero olhar. Sou um relógio, e se ninguém olha as horas, qual o sentido minha existência? Não sei contar dias, meses ou anos, apenas segundos, minutos e horas. E continuarei sem saber até que horas chegarei, imaginando em que minuto meu ponteiro vai parar.
Sei que não terei mais memórias após essas pilhas acabarem, não acho que receberei novas pilhas, pois, apenas uma pessoa tocou em mim desde que aqui cheguei. Se ela não voltar… Só ela me via como parte desta casa, como um contador fiel do tempo dessa família.

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