Do Outro Lado

Desde a infância fui um personagem de mim mesmo. Cresci na ilusão que o mundo era um enorme palco, e que as pessoas eram minha platéia, ora a me aplaudir, mas em maioria do tempo a me vaiar. Isso gerou em meus pensamentos uma necessidade de auto afirmação, comecei a construir em minha volta, um muro de qualidades que julguei necessárias para fazer aquela platéia me admirar.
Estava fadado a buscar ser sempre o melhor, mas sem saber onde queria chegar. Leitura, música, xadrez, matemática, desenho, pintura, comunicação, política, teatro. Caminhei pelos mais diferentes contextos, ganhei conhecimento, porém, nunca estive contente. Continuava a construir o meu muro cheio de incertezas, soberba e lamentações.
A cada tijolo colocado, ganhava inimigos, fugia da realidade e procurava cada vez mais agradar a platéia a todo tempo. Era um desperdício, a plateia já não me queria mais, e o muro já era quase uma muralha intransponível.
Intransponível? Era ilusão. Aquela muralha tinha alguns pilares enfraquecidos, e um amor os achou. O muro começava a ceder, finalmente eu estava saindo do meu casulo e vendo o mundo de outra maneira. Encontrei então, do outro lado do muro, Deus, alegria, conforto, e o amor.
Naquele momento esqueci a platéia, e sai do palco, aventurei-me em lugares desconhecidos, desconstruí pensamentos vazios, deixei de viver ilusões.
Só que o muro começou a ser construído desde muito cedo, e era difícil derrubar uma construção tão antiga. Foi quando tropecei num tijolo, e comecei a reconstruir o meu mundo do eu sozinho.
Voltei para o palco, e platéia ficou fervorosa, como um ator decadente, fui dominado pelo álcool, drogas, e pelo vício dos aplausos. Deixei de lado o amor, Deus, e consequentemente voltei a conviver com a dúvida e o medo.
Quando o amor não conseguiu mais me enxergar, resolveu partir, o muro era muito alto para ele escalar. Do outro lado, eu gritava, berrava por socorro, num desespero tão profundo que a plateia considerava uma das minhas melhores atuações. Eles não viam que aquele sofrimento não era uma atuação de um drama, era de verdade, era eu, destroçado.
Quando parecia que estava tudo perdido, Deus resolveu intervir. Afinal, ele acompanhou essa história de perto, não seria justo eu não ter uma segunda chance. Logo, tirou alguns tijolos, e eu comecei a ver a luz do sol, a me reerguer e retirar tijolos com minhas próprias mãos.
Quando o muro já não era tão alto, o amor voltou a me ver, e começou a trabalhar comigo na retirada dos tijolos. Estamos juntos outra vez, tentando desconstruir esse muro. Não é uma tarefa fácil, é um esforço diário que eu tenho que fazer, para ter de novo o amor por completo, sem receios de que eu comece a colocar tijolos outra vez, sem o medo que eu suba no palco e queira agradar a plateia.
O muro está baixo, mas ainda com muitos tijolos, eu decidi não viver mais ilusões, quero ser apenas eu, ou melhor, eu e meu amor.

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